• JB ROSA FILHO

Operação Weihnachtsmann 1943 - Parte do Capítulo 2

O mar, crispado pelas rajadas de vento, era uma agitada e silenciosa mancha escura diante dos olhos de Wolfgang. O imediato, debruçado sobre as empunhaduras do periscópio, varria com exagerado zelo a superfície ondulada, certificando-se de sua solidão. Girou as lentes ao Sudoeste e o facho amarelado do distante farol – montado sobre a secular edificação do Forte dos Reis Magos – surgiu oscilante, aureolado pela maresia. A Noroeste, outro farol: o de Cabo de São Roque. Satisfeito, transmitiu uma breve ordem ao timoneiro, que, de pronto, obedecendo aos procedimentos ditados pelo engenheiro, reduziu as rotações dos motores elétricos. Wolfgang recolheu o periscópio e, apressado, dirigiu-se à cabine do comandante.

Dentro do submarino, a iluminação avermelhada e o ar impregnado pelo nauseante odor de óleo diesel misturado ao cheiro da cozinha pareciam aumentar a angustiosa sensação de claustrofobia de alguns tripulantes cujas barbas haviam tomado quase que o rosto inteiro.

- Nenhuma embarcação à vista, mein kapitän – avisou o imediato, à porta da cabine do comandante. – Estamos no ponto combinado: seis quilômetros do litoral, à altura do Cabo de São Roque. Coordenadas 5o 29’ S e 35o 15’ W.

Kusch respondeu com um seco e quase imperceptível aceno de cabeça, sem sequer dar-se ao trabalho de olhar para Wolfgang.

- Chame fräulein Rinehardt e diga-lhe para aprontar-se. Ela tem três minutos para deixar a embarcação depois de emergirmos. Dois alferes para preparar o bote de borracha sob sua supervisão. O primeiro-oficial acompanha a operação da torre e os artilheiros devem guarnecer as antiaéreas… É só.

- O senhor deseja dar-lhe adeus?

- Não, Wolfgang. – respondeu Kusch, impaciente, sem desviar os olhos do papel que rascunhava. – Depois que ela partir, avise-me.

Wolfgang não se mexeu. Observava o esguio homem debruçado à sua escrivaninha. Oskar-Heinz Kusch era alto e magro demais. Parecia desproporcional em sua apertada cabine, como um gigante sentado à casa de um anão. Caracterizava-se pela grande boca rasgada sobre o queixo largo, um nariz demasiadamente pequeno para o rosto afilado e orelhas de abano. Apesar de tudo isso, o conjunto montava um elegante rapagão de vinte e cinco anos que havia recebido o comando de seu primeiro submarino em fevereiro daquele mesmo ano.

Após perceber os olhos do capitão fuzilando-o, furiosos, o imediato deu-se por conta de que divagava em local inapropriado. Recompôs-se de um susto e bateu os calcanhares, girando rapidamente para sumir das vistas de Oskar.

Kusch escrevia em seu diário pessoal. Sequer imaginava que aqueles simples pedaços de papel rascunhados tornar-se-iam o início de seu fim. Submetido à Corte Marcial, seria condenado à morte em 26 de Janeiro de 1944 e executado por um pelotão de fuzilamento em 12 de Maio do mesmo ano, em Kiel.

- Com sua licença, capitão.

Kusch fechou o diário em mal dissimulado sobressalto e fitou Karleen parada diante da porta, cabisbaixa, a acariciar timidamente os próprios dedos. Himmler causava-lhe enjoos. Odiava a Gestapo, a SS e a SD. E aquela mulher, humildemente prostrada diante de si, a despeito de sua beleza singular, representava todas elas.

Dönitz o havia chamado ao gabinete do almirantado, em Paris, três dias antes da partida de sua base na França. Visivelmente preocupado em encontrar palavras que amenizassem o impacto da ordem recebida do próprio führer, comunicara-lhe de que deveria receber a bordo uma agente da SD e levá-la até o litoral brasileiro. Estendeu a um Kusch tomado de assombro um papel oficial do Terceiro Reich, contendo a confirmação das ordens e as coordenadas do encontro que se daria em mar aberto, onde um dos submarinos de reabastecimento – conhecidos como “vacas leiteiras” – lhe entregaria, além dos suprimentos necessários ao reabastecimento da nau – óleo diesel, víveres, remédios, água, torpedos e munição – os substitutos dos tripulantes feridos ou doentes e… a espiã de Himmler.

Para Kusch, Karleen era a própria visão do demônio; a personificação de Himmler empestando o ar de seu submarino.

- Pois não, fräulein – respondeu desinteressado, guardando seu diário na pasta de prata e esfregando as mãos no rosto cansado.

Karleen punha-se com os braços cruzados, as mãos a segurarem os cotovelos e o olhar pregado ao chão.

- Vim agradecê-lo pelo tratamento, capitão, e dizer-lhe adeus.

- Adeus, fräulein Rinehardt. Boa sorte e cuide-se.

- Obrigada… Percebi seu desconforto em ter-me mantido a bordo e, mesmo contrariado, tomou medidas para minha privacidade. Sei o quanto isso é difícil em um ambiente tão restrito…

- Não há nada de pessoal em minha contrariedade, fräulein Rinehardt.

- Eu sei – respondeu a menina castanha de olhos azuis, quase a chorar. – Quero que saiba que gosto tanto de Himmler quanto o senhor. Faço isso pela Alemanha… não por ele.

- Todos nós – resumiu o capitão.

- Bem… de qualquer forma, obrigada… e adeus.

Karleen virou-se lentamente e desapareceu pelo estreito corredor, dirigindo-se à sala de controle. Kusch permaneceu imóvel a fitar o nada, com os olhos pregados à côncava madeira envernizada da parede de sua cabine.

Erguendo borrifos de água pelo espaço, como que surgido do nada, o submarino alemão U-154 saltou na escuridão da superfície, balançando graciosamente os setenta e seis metros de estrutura no mar agitado. A escotilha da torre de comando abriu-se e dois alferes saltaram para o convés com a agilidade de um felino, seguidos pelos artilheiros e municiadores das antiaéreas que, metidos em suas capas impermeáveis, dariam cobertura à operação. Wolfgang, guarnecendo posição na torre junto ao primeiro-oficial, Heinrich, acompanhava-os em silêncio. Heinrich esquadrinhava a costa com seu binóculo Zeiss de cor cinzenta.

- Quando vencermos a guerra – falou confiante – virei morar no Brasil.

Wolfgang não respondeu. No fundo, não sabia se desejava que a Alemanha de Hitler ganhasse a guerra, pois temia pelo futuro de sua família, da Alemanha e mesmo do mundo todo, se colocado nas mãos de um Reich inflado de poder e ódio. A única certeza era o desejo de que ela acabasse logo, para voltar à rotina de antes de 1939, quando saía a trabalhar pela manhã e retornava a salvo aos braços de sua família à noite, sem o receio de virar a esquina e deparar-se com a casa reduzida a escombros.

Os marujos levaram ao convés o pequeno bote de borracha e, após inflá-lo com auxílio de um cilindro de ar comprimido, acomodaram a bagagem sob o assento de proa. Um deles instalou o pequeno motor na base da popa. Já na água, a corda de partida foi acionada e o escapamento espalhou no breu uma fantasmagórica nuvem branca de óleo queimado que o vento se encarregou de dissipar. O outro alferes esmerava-se por manter o batel colado ao convés do submarino cuja popa mantinha-se propositadamente semi-submersa para facilitar a operação de lançamento do bote.

O rosto de Karleen emergiu da escotilha, ao topo da torre, revelando na fisionomia o ânimo de um condenado sendo conduzido à forca. Estancara nos últimos degraus da escada e ficara a observar, absorta, os vultos dos artilheiros e municiadores, congelados como quatro estátuas diante de seus canhões giratórios de vinte milímetros e olhos atentos voltados ao céu. Os dois canhões duplos tinham suas bases afixadas no prolongamento do piso da torre. A mancha escura do continente subia e descia além do mastro, onde, ainda encharcada, a bandeira alemã tremulava, açoitada pela brisa.

Os coturnos do imediato surgiu-lhe à altura dos olhos, devolvendo-a à realidade. Gentil, o homem estendeu-lhe a mão. Amparada por Wolfgang, a garota subiu à torre. O vento da noite esvoaçava-lhe os cabelos finos.

- Fräulein Rinehardt…

- Sim – respondeu Karleen, voltando-se para o imediato.

- Leve isso – falou em tom grave, soando como uma ordem. Colocou o instrumento em sua mão e fechou-a delicadamente. – Ganhei essa bússola de meu pai, no início da guerra. Ela permite visualizar o limbo no escuro. Siga o rumo 290 graus. São Roque fica naquele farol – finalizou, apontando para a direção da luz.

- Mas ela lhe pertence…

- É para uma boa causa – respondeu o imediato, sorrindo. – Se tudo correr bem, a senhorita me devolve na Alemanha, quando a guerra acabar. Fique atenta aos recifes próximos à praia. O agente local informou que são perigosos.

- Obrigado, Wolfgang. Você é um anjo. – Karleen beijou-lhe o rosto. – Adeus.

- Adeus, fräulein. Cuide-se bem.

O imediato observou a garota passar por entre os artilheiros com os olhos pregados ao chão e descer a escada vertical a bombordo, até a ponte da antiaérea de trinta e sete milímetros. Ela curvou-se sob o resguardo da gaiola, agarrando-se aos ferros da balaustrada e, por fim, saltou para o convés. O movimento cíclico da nau, sacolejando a mercê das ondas, permitia às finas lâminas de água salgada, a cada sobe-desce, encobrirem o dorso do submarino e lamberem-lhe os pés. Karleen galgou ziguezagueante sobre o convés, agarrada ao cabo da antena de rádio que atravessava longitudinalmente a estreita nau. Estancou a alguns metros da popa, esquivando-se dos assustadores esguichos de água borrifados pelo mar revolto.

Entrar no bote pareceu-lhe impossível. Balançando ferozmente na superfície, o barco resistia com extraordinária bravura aos esforços empreendidos pelos alferes em contê-lo. Os homens cederam-lhe as mãos livres e auxiliaram-na a embarcar. Temerosa, divisou na penumbra a tábua do assento de popa corcoveando, arredia, e, agarrando-se às bordas do bote, jogou-se sobre ela.

Soltou as amarras e atirou as cordas em direção ao submarino. Um dos marujos, recolhendo o cordame, empurrou o barco para longe, acenando, triste, com o boné branco que tirara da cabeça.

Karleen não percebera, mas Wolfgang, de pé ao lado de Heinrich, na torre de comando, levava a mão direita à altura da testa, em respeitosa continência à coragem de fräulein Rinehardt, enquanto a pequena embarcação sacudia-se além da popa do submarino até desaparecer por completo, engolida pela escuridão.


Continua...

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